No Parque Moscoso, a Fonte dos Cavalos testemunha a história do abastecimento de água em Vitória
Alfredo Mazzei
Arquivo Público Municipal
Com jardins floridos, árvores centenárias, lagos, pontes e chafarizes, aos 114 anos, o Parque Moscoso continua encantando os visitantes. Nesta semana de comemoração do aniversário do jardim mais antigo da cidade, uma dica é reparar em um monumento peculiar, a Fonte dos Cavalos, instalada em 1889, ou seja, há 137 anos, antes mesmo da urbanização do antigo Campinho, que deu origem ao parque.
Na época, a área aterrada era um movimentado ponto de passagem e a fonte aliviava a sede dos animais de carga – daí o nome. Em 1910, com o início da urbanização do local, a antiga bica foi totalmente remodelada, virou um chafariz ornamental, preservado até hoje.
Conhecer a origem da Fonte dos Cavalos é mergulhar em um período fundamental da evolução urbana de Vitória. Da fundação da vila, em 1551, até o início do século XX, o acesso à água doce foi um dos principais desafios enfrentados pela população local, que dependia das bicas e torneiras alimentadas por águas canalizadas das nascentes existentes nas encostas da ilha.
Foram mais de três séculos, nos quais a população contava com fontes públicas, como a da Fonte Grande (mais tarde, Fonte São Benedito), o Chafariz da Capixaba, o Chafariz da Lapa, o da Ladeira do Chafariz (atual Rua Nestor Gomes) e o Chafariz de São Francisco. Eles formaram o principal sistema público de abastecimento da cidade até a implantação das redes domiciliares de água encanada, concluída em 1910.
No Arquivo Público Municipal encontram-se documentos oficiais, fotografias, jornais e plantas arquitetônicas que preservam parte da memória desse período. Desativados, quase todos os antigos equipamentos foram demolidos. O Chafariz da Capixaba, restaurado pela Prefeitura de Vitória em 2024, permanece como o principal remanescente preservado desse antigo sistema.
A ilha, os morros e o desafio do abastecimento de água
Abrir a torneira para lavar as mãos, encher um balde ou uma panela são gestos cotidianos. O que pouca gente imagina é que, durante séculos, os moradores de Vitória precisaram enfrentar longos deslocamentos e horas de espera diante dos chafarizes públicos, abastecidos por pequenos cursos d’água canalizados das nascentes localizadas nos morros da ilha.
Os chafarizes funcionavam com base na força da gravidade, que conduzia a água até as bicas por meio de tubulações simples. Além da função de abastecimento, os chafarizes eram locais para lavar roupas, compartilhar histórias, combinar mutirões e fortalecer as relações de vizinhança. A fila de espera era também o tempo da conversa e da convivência. Alguns possuíam tratamento ornamental sofisticado para os padrões da época e desempenhavam papel importante na paisagem urbana.
Frei Paulo de Santo Antônio e o primeiro aqueduto
A origem dos primeiros sistemas de abastecimento de Vitória remonta ao século XVI. Entre 1537 e 1540, o donatário Duarte de Lemos teria instalado a primeira fonte próxima ao Largo da Capela de Santa Luzia (onde hoje funciona o Hospital da Associação dos Servidores).
Em 1643, frei Paulo de Santo Antônio construiu um aqueduto para levar as águas da Fonte Grande até a cozinha do Convento de São Francisco: o primeiro registro de abastecimento domiciliar por água encanada em Vitória. O historiador Luiz Derenzi lembra a complexidade da obra para a época. Para Derenzi, o frei Paulo de Santo Antônio deve ter sido o primeiro topógrafo e engenheiro na Vila de Vitória.
A água do antigo aqueduto passou a abastecer o Chafariz de São Francisco, inaugurado em 13 de maio de 1856 em cerimônia festiva que reuniu autoridades e moradores. O chafariz foi descrito na época como um “monumento de elegante ornato” e de “finíssima escultura”. Apesar disso, o antigo aqueduto franciscano foi demolido pelo engenheiro Torres Homem, em 1880.
O Chafariz da Capixaba: o único remanescente do antigo sistema
Em 1828, teve início a construção do Chafariz da Capixaba, considerado o primeiro grande chafariz público do Espírito Santo, na entrada do Parque Municipal Gruta da Onça. Construído em alvenaria de pedra, reunia reservatório, bicas e uma grande bacia granítica de bordas espessas — o elemento mais antigo preservado do conjunto. Reunia referências da tradição luso-brasileira, com azulejos portugueses, lampiões ornamentais e torneiras de bronze em formato de pescoço de cisne.
A água vinha do Morro da Vigia, então coberto por mata espessa e considerado uma das áreas mais preservadas da ilha. Em 1848 já existia, ao lado do monumento, uma área destinada à lavagem de roupas. Em 1878, foi construída uma casa de “banhos frios” anexa ao conjunto. O chafariz passou por diversas intervenções em todo o século XX. Nos anos 1970, a azulejaria foi substituída, foram construídas muretas e acrescentada a sigla “PMV” em um medalhão central. O conjunto também perdeu os antigos pináculos e os lampiões.
Finalmente, foi tombado pelo Conselho Estadual de Cultura em 1989. Em 2024, a Prefeitura de Vitória realizou nova restauração, devolvendo ao monumento parte de suas características originais. O Chafariz da Capixaba permanece como uma das últimas marcas físicas do período em que Vitória dependia diretamente de suas nascentes para sobreviver.
A modernização da cidade e o desaparecimento do Chafariz da Lapa
O Chafariz da Lapa era localizado na antiga Rua da Lapa, nas proximidades da Igreja Matriz (atual Catedral Metropolitana), em uma área de ligação entre a Cidade Alta e o antigo Forte São Diogo. Há poucas referências sobre o primeiro chafariz, o que era comum acontecer com equipamentos de uso popular e de arquitetura simples.
Já a segunda versão, inaugurada em 21 de junho de 1889, durante o governo de Henrique de Athayde Lobo Moscoso, foi amplamente registrada pela documentação da época. O novo monumento foi executado em pedra lavrada pelo artista Franz Berlanda, o mesmo escultor responsável pelo busto do governador instalado no Parque Moscoso.
Com as reformas urbanas e a reorganização viária do entorno da antiga matriz, já no século XX, a Rua da Lapa desapareceu, assim como o antigo chafariz.
A Fonte Grande e a iniciativa de preservação do manancial
Durante o governo de Muniz Freire, entre 1892 e 1896, as áreas de mata localizadas ao redor das nascentes da Fonte Grande, da Lapa e da Capixaba foram declaradas de utilidade pública — uma das primeiras iniciativas de proteção ambiental associadas ao abastecimento urbano no Espírito Santo.
Nesta mesma época, iniciou-se a canalização das águas da Fonte Grande. Porém, as estruturas originais foram muito modificadas ao longo do século XX em razão da ocupação da encosta e dos riscos de contaminação.
Batizada como Fonte São Benedito, ela ainda é utilizada pela comunidade local para usos domésticos. A bica sobreviveu como manancial natural e espaço de uso popular. Ao longo dos séculos, a nascente abasteceu moradores da capital e tornou-se uma das principais referências do sistema hídrico da cidade, além de tornar-se espaço de convivência, trabalho feminino e devoção popular
Escassez também de registros dos chafarizes
No final do século XIX, Vitória possuía vários pontos de abastecimento público. Porém, quase não existem fotografias, descrições arquitetônicas ou registros oficiais dessas estruturas. Tudo indica que eram simples bicas públicas ou pequenos chafarizes que atendiam à expansão urbana da capital no final do século XIX.
O Decreto nº 15, de 27 de maio de 1893, reorganizou a administração das águas urbanas e dividiu o sistema em três seções ligadas aos reservatórios da Fonte Grande, Capixaba e Lapa. O documento menciona chafarizes instalados na Praça Costa Pereira, na região da antiga Alfândega de Vitória; no Cais do Imperador; na Rua Cristóvão Colombo; e na antiga Vila Moscoso, área posteriormente ocupada pelo Parque Moscoso.
O chafariz da Praça Costa Pereira atendia à expansão comercial da parte Cidade Baixa. Já os da Alfândega e do Cais do Imperador estavam diretamente ligados à atividade portuária. Na Rua Cristóvão Colombo, o decreto menciona “os chafarizes”, indicando a existência de mais de um ponto de abastecimento ao longo da via.
Na Vila Moscoso, área de expansão urbana associada aos projetos de modernização republicana da capital, o chafariz da Fonte dos Cavalos parece representar a transição entre os antigos sistemas coloniais e a futura implantação das redes domiciliares.
Festa na cidade e fim de uma era
A solução definitiva para a crise hídrica veio com a implantação do sistema de abastecimento proveniente de Duas Bocas. Em 25 de novembro de 1910, água abundante começou a jorrar na Praça Oito e em outros pontos da cidade. Os jornais da época descrevem abraços, lágrimas e manifestações espontâneas de alegria.
Chegava ao fim o antigo martírio das filas nos chafarizes, das canoas vindas do Rio Marinho e dos vendedores particulares de água.
Os n ovos chafarizes: De essenciais e cotidianos para obras ornamentais
Com a implantação da rede domiciliar de abastecimento, a água deixou de ser um bem disputado nas filas e passou a chegar às casas pelos canos. Os chafarizes passam a ser símbolos do progresso e elementos de embelezamento dos novos espaços públicos que a cidade republicana queria ostentar.
Assim, a Fonte dos Cavalos transforma-se em uma coluna clássica, executada em concreto sobre um pedestal, onde se encontram as bicas. O conjunto possui cerca de 4,50 metros de altura e 0,40 metro de diâmetro. Guirlandas de flores e folhas percorrem toda a coluna, que recebeu um globo metálico no alto, com a inscrição: Villa Henrique Moscoso — Homenagem ao trabalho.
O Parque Moscoso ganhou outras fontes ao longo do tempo. Em 1912, na inauguração do parque, foi instalada a Fonte Jerônimo Monteiro, em homenagem ao governador de mesmo nome, responsável pela implantação do sistema moderno de abastecimento. Em 1973, uma Fonte Moderna foi implantada na segunda grande intervenção arquitetônica do parque, incorporando a estética de seu tempo ao conjunto.
Esse mesmo espírito de embelezamento urbano marcou a história do chafariz da Praça Dom Luiz Scortegagna, em frente à Catedral Metropolitana de Vitória. Como se sabe, a antiga Igreja Matriz foi demolida para dar lugar ao novo templo, projetado em 1913 por Paulo
Motta, o mesmo que havia traçado o Parque Moscoso e a Praça Costa Pereira, porém com profundas alterações executadas pelo construtor André Carloni, o mesmo que projetou e construiu o Theatro
Carlos Gomes.
Conforme registra o livro Logradouros de Vitória, de Elmo Elton, o chafariz foi projetado para completar a paisagem do conjunto monumental, contribuindo para criar um cenário urbano e imponente. A praça e o chafariz foram construídos junto a igreja, que teve as obras iniciadas em 1920 e concluídas em 1970.
Na Praça Costa Pereira também sofreu alterações no projeto original. Nos anos 1940, ganhou um lago artificial, um chafariz e uma escultura intitulada “Mãe”, obra do artista plástico Maurício Salgueiro.
Referências:
DERENZI, Luiz Serafim. Biografia de uma ilha. Rio de Janeiro: Pongetti, 1965.
ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986.
ESPÍRITO SANTO (Província). Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial pelo primeiro vice-presidente da Província, Alpheu Adelpho Monjardim d’Andrade e Almeida. Vitória, 1882.
BELLINI, Anna Karine de Queiroz Costa. Espaços públicos abertos e o usufruto da paisagem: 1860 a 1916 – Vitória (ES). 2014. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2014. Disponível em: ESPAÇOS PÚBLICOS ABERTOS E O USUFRUTO DA PAISAGEM: 1860 A 1916. Acesso em: 14 maio 2026.
CAUS, Celso Luiz. Das fontes e chafarizes às águas limpas: evolução do saneamento no Espírito Santo. Vitória: CESAN, 2012.
ESPÍRITO SANTO (Estado). Secretaria da Cultura. Catálogo do patrimônio arquitetônico. Vitória: Secult, [s.d.]. Disponível em: Patrimônio Arquitetônico. Acesso em: 15 maio 2026.
Fonte dos Cavalos: homenagem ao trabalho. In: Arte Pública Capixaba. Disponível em: Arte Pública Capixaba. Acesso em: 13 maio 2026.
Arquivo Público Municipal
Arquivo Público Estadual
Fila para abastecimento de água no Chafariz de Santa Luzia, construído por Duarte de Lemos







