Sem internet, TV ou rádio: saiba como os capixabas acompanhavam as primeiras Copas do Mundo
Arquivo Público Municipal
Os ‘players’ brasileiros, o ‘scratchmen’ Adhemar Pimenta, na Revista Vida Capixaba, em 1938.
Arquivo Público Municipal
Luiz Paixão faz anedotas, associando nome de filmes a situações na Copa. Revista Vida Capixaba, 1953.
Imagine saber os resultados dos jogos da Copa do Mundo, especialmente da seleção brasileira, com dois dias ou mais de atraso! Sem internet ou TV e raros acessos ao rádio e ao telefone, a cobertura da imprensa capixaba na primeira edição do torneio mundial de futebol, em 1930, foi baseada, principalmente, em mensagens telegráficas recebidas por meio de cabos submarinos (os cabogramas).
Os diários do Espírito Santo não contavam com correspondentes próprios no exterior. As informações chegavam por meio de cabogramas de agências de notícias internacionais e da reprodução do noticiário dos grandes jornais do Rio de Janeiro (como Jornal do Brasil) e de São Paulo (como Correio da Manhã e O Estado de S. Paulo). Os cabogramas foram os precursores da comunicação digital transcontinental, permitindo que notícias urgentes cruzassem oceanos antes da popularização do telefone, do rádio, da TV e da internet.
A partir da Copa de 1938, o rádio permitiu um acompanhamento mais imediato, porém ainda restrito a um pequeno número de pessoas e marcado por falhas na transmissão e imprecisões. Nesse cenário, os jornalistas locais assumiriam um importante papel interpretativo: juntavam fragmentos de informação do rádio e dos cabogramas e construíam uma narrativa carregada de emoção, opinião e identidade nacional.
O Arquivo Público de Vitória possui exemplares da época de jornais como Diário da Manhã, fundado em agosto de 1907, e A Gazeta, fundada em setembro de 1928, e da Revista Vida Capixaba, criada em abril de 1923, que reproduzem o clima na capital nos dias de jogos. Desde aquela época, a seleção brasileira despertava forte sentimento nacionalista, especialmente em 1938.
Esporte símbolo de modernidade
O crescimento do futebol em Vitória, nas primeiras décadas do século XX, acontece no auge do projeto de modernização da capital capixaba, fundamentado em reformas urbanas e sanitárias que buscavam superar a imagem de vila colonial e aproximar a cidade das grandes metrópoles.
O futebol foi impulsionado, a partir da década de 1910, por jovens das camadas mais favorecidas da sociedade, sobretudo os que estudavam em centros como Rio de Janeiro e São Paulo. Lá, entravam em contato com a modalidade esportiva e, em suas vindas à terra natal, traziam bolas de couro, chuteiras e técnicas.
Na época, o remo era a prática mais tradicional e prestigiada em Vitória. Com o tempo, o futebol foi apropriado por diferentes grupos sociais, alcançando camadas populares e ampliando sua presença no cotidiano da cidade. Nesse processo, a imprensa teve papel decisivo, ao divulgar partidas, valorizar o esporte e despertar o interesse do público.
Um ‘penalty’ inexistente derrotou o Brasil
As matérias sobre Copa nos anos 1930, 1934 e 1938 eram construídas a partir de fontes objetivas, como as notícias recebidas por meio dos cabogramas internacionais, dos jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo e de boletins de organizações esportivas. A partir de 1938, passaram a contar também com fontes em “tempo real”, por meio das ondas do rádio — ainda que com falhas na transmissão.
Mas o que marca a cobertura da imprensa capixaba são as camadas interpretativas, caracterizadas pelas análises dos jornalistas, a leitura política e a dramatização narrativa. Por isso, os textos têm um tom literário, emocional e muitas vezes crítico.
Na Revista Vida Capixaba, de 1938, o escritor Alvimar Silva – o mesmo que dá nome a uma escola da rede municipal, em Santo Antônio – faz um relato pessoal e emotivo sobre o fim da participação do Brasil na Copa do Mundo daquele ano. O artigo “Emoção Nacional” é um editorial opinativo, com forte crítica à Europa e à arbitragem e denuncia: “Um ‘penalty’ inexistente derrotou o Brasil“.
“Basta até de ‘foot-ball’. A desclassificação dos brasileiros para a disputa do campeonato do Mundo, mostrando-nos, ao vivo, essa vontade [dos europeus] de anular todos os esforços dos americanos, para se fazerem valer dentro da Europa”. E conclui: “Para um combinado americano vencer um campeonato na Europa, não precisa somente saber jogar. Mas, em primeiro lugar, saber matar.”
Alvimar Silva associa futebol a relações internacionais, encara a derrota como ‘injustiça europeia contra países americanos’ e passa a ideia de que a Europa manipulava resultados.
Cobertura do ‘Foot-ball’: com score, teams, goals, players, match, scratchman
A edição 456 da Revista Vida Capixaba, na Copa de 1938, mostra bem a linguagem utilizada na época. Como na nota: “Novas declarações do technico Pimenta“.
Paris, 30 – Chefiados por Adhemar Pimenta, os ‘scratchmen’ brasileiros deixarão Paris com destino a Niederbronn, onde aguardarão o dia 5 de junho, data em que devem enfrentar o ‘team’ da Polonia.
Na mesma página, sob o título “Os ‘cracks’ deixarão Saint Germain, amanhã“, há uma notícia de dois dias antes:
Paris, 30 — No sábado, dia 28, os ‘players’ brasileiros farão a sua primeira visita a Strasbourg, tendo então oportunidade de ver o campo no qual jogarão contra os polonezes.
O futebol ganhou adesão popular na década de 1920, mas os termos em português só começaram a ser empregados na crônica esportiva a partir dos anos 1940. Score, teams, goals, players, match, scratchman eram mais comuns que placar, times, gols, jogadores, partida e jogador da seleção. O uso de termos em inglês, segundo a crítica especializada, passava a ideia de que a Copa era percebida como evento global moderno.
Ganhando ou perdendo, sempre fazendo anedotas
Desde o início do século XX, o futebol sempre rendeu boas anedotas. Na Revista Vida Capixaba, de 1953, o escritor Luiz Paixão associa nomes de filmes a situações cômicas e trágicas da Copa do Mundo.
- “Nada Além de um Desejo” — o que se passou com a famosa Celeste Olímpica (seleção argentina);
- “Touro Selvagem” — o jogador uruguaio Carbillo e “A Voz do Sangue” não resta dúvida que é o jogo da turma uruguaia;
- “Rivais em Fúria” — os quadros que disputaram o campeonato;
- “Marcado pelo Destino” — o ‘team’ peruano;
- “Crazy Rhythm” (Ritmo Louco) — ritmo do jogo da defesa brasileira;
- “Conflicto d’alma” — o drama do torcedor esperando uma goleada sobre o Uruguai;
- “Roubar para viver” — alguns juízes do campeonato.
Referências:
1 – PAIXÃO, Luiz N. Música Cinema e Futebol. Revista Vida Capixaba, [Vitória, ES], 1953. Arquivo Público de Viória.
2 – SILVA, Alvimar. Europeísmo. Revista Vida Capixaba, [Vitória, ES], 1938. Arquivo Público de Vitória
3 – SILVA, Cecília Nunes da; VARNIER, Thacia Ramos. O esporte na imprensa em Vitória (1926-1936): uma análise dos jornais A Gazeta e o Diário da Manhã. Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 23, n. 4, p. 545-555, dez. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/refuem/a/dVRLcPDQGGpQJy5gnV7FQvv/abstract/?lang=pt. Acesso em: 22 jun. 2026.
Arquivo Público Municipal
O escritor Alvimar Silva (1911–1943) atuou como cronista esportivo nas primerias Copas do Mundo.
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