Conhece o Rio Maruhype e a Praia do Rirahem? São parte da história da Nova Orla do Canal de Camburi
Atquivo Público Municipal
Ponte da Passagem. Década de 1910.
Arquivo Público Municipal
No próximo dia 18, Vitória vai ganhar um novo espaço de convivência, lazer e mobilidade, que vai trazer mais beleza para a cidade e qualidade de vida para a população: a nova Orla do Canal de Camburi. Este novo cenário seria inimaginável até as primeiras décadas do século XX, quando o canal, conhecido como Rio Maruhype, era apenas uma barreira natural, que separava a Ilha de Vitória da porção continental.
No projeto do Novo Arrabalde, de 1896, o Canal de Camburi (ou Canal da Passagem) foi considerado o limite da cidade. Distante do Centro, a região era vista apenas como passagem para o Norte do Estado. Esta paisagem, dominada por manguezais, perdurou até quase meados do século XX. Até então, como mostra uma planta de situação de 1929, o canal era conhecido como Rio Maruhype; a Praia de Camburi era a Praia do Rirahem e o Bairro Santa Luiza chamava-se Bairro Bomba, pois ali havia um posto de abastecimento.
Fotografias, projetos de urbanização e outros documentos oficiais preservados no Arquivo Público Municipal contam a trajetória desta área que deixa de ser o que separa duas porções do território para ser um eixo de conexão entre bairros, de convivência para a população e de valorização da cidade de frente para o mar.
O Novo Arrabalde e a expansão rumo ao norte da ilha
Quando o engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito projetou o Novo Arrabalde, em 1896, a expansão planejada para Vitória tinha como limite o canal. Contratado pelo governador Muniz Freire, ele realizou os levantamentos topográficos; os estudos de saneamento; a abertura de algumas vias e fez reserva das áreas previstas para expansão. Porém, o Espírito Santo foi impactado pela crise econômica do final do século XIX, e grande parte do plano permaneceu apenas no papel.
A ocupação do Novo Arrabalde se intensificou nas décadas de 1920 e 1930. Nesse período, os governos estaduais promoveram aterros e importantes obras de infraestrutura, como as avenidas Norte Sul (atual Leitão da Silva) e Reta da Penha, previstas por Saturnino de Brito.
Em 1946, o governador Jones dos Santos Neves contratou o urbanista francês Alfred Agache para a elaboração de um novo projeto de expansão para Vitória, que ficou conhecido como Plano Agache. Ele manteve a diretriz da expansão urbana em direção ao norte da ilha e planejou a ocupação das áreas ainda vazias; áreas de expansão; e novos aterros como forma de ampliar o território urbanizável. Mas a região continuou com baixa ocupação, enquanto o Centro da Cidade recebia as maiores obras de infraestrutura e de expansão.
Foi nas décadas de 1960 e 1970, que Vitória vivenciou um dos períodos mais intensos de expansão territorial e populacional. Neste período, importantes organizações, como a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o Aeroporto de Vitória, o complexo portuário de Tubarão – que reuniu as antigas Companhia Vale do Rio Doce (atual Vale) e Companhia Siderúrgica de Tubarão (atual Arcelor Mittal) chegaram à capital.
Essas obras atraíram trabalhadores, empresas e infraestrutura, impulsionando a ocupação da região de Camburi, especialmente as áreas próximas ao canal. A ocupação se deu de forma desordenada, caracterizada por barracos e palafitas permeando as margens do Canal e provocando a descaracterização do ambiente natural.
Arquivo Público Municipal
Pontal de Camburi e Canal da Passagem. Década de de 1950.
Paulo Bonino
Limite com a antiga Fazenda Mata da Praia
A ocupação da margem continental do Canal de Camburi teve origem na antiga Fazenda Mata da Praia, também conhecida como Sítio Queiroz, propriedade do capitão Justiniano Azambuja Meyrelles, escriturada em 1891. Onde hoje é o Bairro Jardim da Penha e parte da Ufes, havia vegetação de restinga e Mata Atlântica, formando um verdadeiro “jardim” de cajueiros, bromélias, goiabeiras, palmeiras e orquídeas, de onde se avistava o Convento da Penha.
Seis anos após a morte de Justiniano, Ostilho Ximenes promoveu, em 1928, a primeira tentativa de loteamento da fazenda. A iniciativa coincidiu com a construção da Ponte da Passagem (1927-1930), obra que passou a integrar a região ao restante da cidade e estimulou seu potencial de ocupação.
O desenvolvimento, porém, só ganhou impulso na década de 1950, quando a Prefeitura aprovou o loteamento projetado por Creso Euclydes, com cerca de 1.400 lotes distribuídos em largas avenidas diagonais. A ocupação foi gradual e, na década de 1960, Jardim da Penha ainda possuía poucas moradias e infraestrutura precária. Nas décadas seguintes, os aterros e as novas travessias sobre o Canal de Camburi consolidaram a urbanização da margem continental.
A evolução urbana por meio de pontes: de uma pinguela à estrutura estaiada
A primeira ligação entre a ilha de Vitória e a parte continental foi uma ponte de madeira (pinguela), construída no final do século XVIII. Por ela trafegavam pessoas e animais de carga. Há registros de que Dom Pedro II teria atravessado a ponte rumo a Linhares, em sua visita ao Estado no início de 1860.
A estrutura recebeu pilares de concreto e foi totalmente substituída pela Ponte da Passagem, no governo de Florentino Avidos. Inaugurada em 1930, essa ponte foi a única ligação viária entre a Ilha de Vitória e sua porção continental até 1966, quando foi construída a Ponte de Camburi. Porém, essa primeira ponte desabou logo no ano seguinte. Foi reerguida em 1969 e recebeu o nome de Ponte Ceciliano Abel de Almeida, em homenagem ao primeiro prefeito de Vitória.
Nesta época, a Praia do Canto já estava em pleno processo de ocupação e o trânsito já recebia o impacto dos grandes empreendimentos fixados na porção continental do município desde a década de 1960: a antiga Companhia do Vale do Rio Doce ou CVRD (hoje, Vale), o Aeroporto de Vitória, a Companhia Siderúrgica de Tubarão ou CST (atual Arcelor Mital) e da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
A nova travessia reduziu o percurso até Camburi e impulsionou a ocupação de Jardim da Penha, Mata da Praia e, posteriormente, Jardim Camburi. Na década de 1980, para ampliar a capacidade de tráfego entre a ilha e Camburi, foi construída a Ponte Petrônio Portela, no sentido Jardim da Penha – Praia do Canto. Desta forma, o que chamamos de Ponte de Camburi são, na verdade, duas pontes paralelas.
Para responder ao intenso crescimento urbano da década de 1990, foi construída a quarta ligação com a porção norte: a Ponte Ayrton Senna, em 1996. Com o crescimento da cidade e do número de veículos em circulação, em agosto de 2009, a antiga Ponte da Passagem foi substituída pela atual Ponte Governador Carlos Fernando Monteiro Lindenberg, a primeira ponte estaiada do Estado, com mais faixas de trânsito. O projeto é do engenheiro capixaba Karl Fritz Meyer e a ponte tem 270 metros de extensão.
Atualmente, o Canal de Camburi é margeado pelos bairros: Pontal de Camburi e Jardim da Penha, localizados na parte continental, e Praia do Canto, Barro Vermelho, Santa Luiza, Andorinhas e Santa Martha, na ilha de Vitória.
Referências: Arquivo Público da Prefeitura de Vitória.








