Franceses, portugueses e índios: como uma guerra originou a primeira missão jesuítica de Vitória
Jansen Lube
Carlos Antolini
Estátua do Índio Arariboia restaurada e preservada.
Poucos anos após a fundação da então Villa de Victoria, em 1551, a capital capixaba acolheu um grupo indígena que fugia de uma guerra na antiga Guanabara. A chegada do líder Maracajaguaçu e de centenas de integrantes do povo temiminó deu início a uma aliança entre portugueses e indígenas, originou uma das mais importantes missões jesuíticas da era colonial e impulsionou a ocupação do território capixaba.
Este episódio envolveu guerras entre tribos, disputas entre portugueses e franceses pelo controle do litoral brasileiro, a expansão das missões religiosas e a formação dos primeiros aldeamentos jesuíticos. Assim nasceu a Aldeia de Nossa Senhora da Conceição, um dos mais importantes centros de catequese do Brasil colonial e que daria origem, séculos mais tarde, à atual cidade da Serra.
Os documentos que contam esta história são poucos e estão espalhados por bibliotecas, como a do Exército (no Rio de Janeiro) e a de Lisboa (Portugal). Já os mapas, as leis e decretos que mostram os antigos limites de Vitória estão preservados no Arquivo Público Municipal.
A guerra na Guanabara e o socorro capixaba
Durante muitos anos, os temiminós – também chamados de maracajás ou índios do Gato – e tamoios travaram disputas territoriais, como era comum na vida indígena antes da colonização. Com a chegada dos europeus, a disputa pelo comércio do pau-brasil e pelo controle territorial transformou antigas rivalidades em guerras de grandes proporções. Os tamoios (ou tupinambás do Sul) passaram a apoiar os franceses, que vieram ocupar a Guanabara. Tupiniquins e temiminós ficaram ao lado dos portugueses.
Por volta de 1555, o líder temiminó Maracajaguaçu (Gato Grande, em tupi), se viu cercado pelos inimigos, que iriam destruir sua aldeia. Decidiu buscar proteção entre os portugueses do Espírito Santo. Um de seus filhos foi enviado à capitania levando uma mensagem: ele, sua esposa, seus filhos e sua gente desejavam receber proteção e abraçar a fé cristã.
Ao tomar conhecimento da situação, Vasco Fernandes Coutinho organizou uma expedição de resgate com por quatro navios armados, abastecidos com mantimentos e artilharia para enfrentar eventuais ataques franceses. A operação foi bem sucedida e o grupo encontrou abrigo no Espírito Santo, sob a proteção dos colonizadores e dos missionários jesuítas.
O nascimento de uma comunidade
Os jesuítas estavam presentes na capitania desde 1552, quando os padres Afonso Brás e Simão Gonçalves foram enviados por Manuel da Nóbrega para fundar a primeira missão religiosa do Espírito Santo. No ano seguinte, receberam terras onde construíram residência, áreas de cultivo e uma igreja dedicada a Santiago Maior (atual Palácio Anchieta).
A chegada dos indígenas liderados por Maracajaguaçu acelerou o desenvolvimento das missões. Inicialmente, os maracajás ficaram instalados nas proximidades da Vila de Vitoria e conviviam diretamente com os missionários da Companhia de Jesus. Logo formaram o primeiro grande aldeamento jesuítico da capitania, a Aldeia de Nossa Senhora da Conceição, em uma área na porção continental de Vitória, aos pés do Monte Mestre Álvaro.
Segundo os historiadores, as aldeias organizadas pelos jesuítas serviram de base para a formação de praticamente todos os primeiros núcleos populacionais da capitania. Além da evangelização, desempenhavam funções de proteção, ensino, organização comunitária e produção agrícola.
Prestígio junto aos colonizadores
Maracajaguaçu foi descrito pelos jesuítas como um guerreiro valente, habilidoso e respeitado. O padre Luís da Grã registrou que ele era “muito conhecido dos cristãos e muito temido entre os gentios”, com grande influência política e militar em sua região.
A relação de confiança construída com Vasco Fernandes Coutinho e com os jesuítas foi um elemento importante para a estabilidade da capitania. O episódio mais emblemático dessa relação ocorreu em 1558, quando um de seus filhos – que recebeu o batismo e o nome cristão de Sebastião de Lemos, em homenagem a Duarte de Lemos – morreu.
Foi realizada uma cerimônia considerada extraordinária para os padrões da época. O funeral reuniu autoridades civis, religiosas e membros da comunidade indígena. Em uma demonstração pública de enorme significado político, Vasco Fernandes Coutinho convidou Maracajaguaçu para sentar-se entre ele e seu filho, herdeiro da capitania, durante a cerimônia.
Conversão e transformação cultural
Pouco tempo depois, o próprio Maracajaguaçu aceitou o batismo cristão. Sua esposa recebeu o nome de Branca e passou a exercer importante papel na catequese indígena. Descrita pelos missionários como profundamente religiosa, tornou-se uma das principais colaboradoras dos jesuítas dentro da aldeia.
Entre os filhos convertidos estava Arariboia, que mais tarde se tornaria um dos personagens indígenas mais importantes da história do Brasil. Após o batismo, ele recebeu o nome cristão de Martim Afonso de Sousa.
A organização tradicional dos maracajás foi gradualmente substituída pelo modelo de aldeamento cristão implantado pelos religiosos. Costumes ancestrais passaram a ser combatidos, especialmente aqueles relacionados à poligamia, às estruturas familiares tradicionais e às práticas religiosas indígenas.
Educação, catequese e construção da capitania
Os períodos de relativa paz eram aproveitados pelos jesuítas para expandir suas atividades educacionais e missionárias. Além da catequese, fundaram os primeiros estabelecimentos de ensino do Espírito Santo. O mais importante deles foi o Colégio dos Meninos de Jesus do Espírito Santo, posteriormente conhecido como Colégio de Santiago.
Os missionários também organizaram escolas de alfabetização e desenvolveram um método baseado no aprendizado mútuo das línguas portuguesa e tupi, buscando facilitar a comunicação entre indígenas e europeus.
Em 1585, o padre Fernão Cardim registrou que o Espírito Santo possuía mais indígenas evangelizados do que qualquer outra capitania da colônia.
Maracajaguaçu e Arariboia na defesa do Espírito Santo
Os guerreiros de Maracajaguaçu participaram da defesa da capitania contra ataques estrangeiros e auxiliaram os portugueses em diversas campanhas militares. Quando os franceses tentaram atuar no litoral capixaba e ameaçaram Vitória, encontraram resistência das forças coloniais apoiadas pelos indígenas aliados.
Arariboia, que significa “Cobra Feroz”, herdou a liderança do povo após o envelhecimento e posterior morte de Maracajaguaçu.
Em 1565, os franceses ainda mantinham a chamada França Antártica na Baía de Guanabara, sustentados pela aliança com os tamoios, que eram muito numerosos. Mem de Sá organizou uma nova ofensiva contra os invasores e recorreu ao apoio dos temiminós liderados por Arariboia.
Arariboia e seus homens lutaram ao lado dos portugueses nas batalhas que resultaram na derrota dos tamoios e na expulsão definitiva dos franceses da Guanabara.
Após a vitória portuguesa, Arariboia permaneceu na região da Guanabara. Em 1573, por determinação de Mem de Sá, ele tomou posse da área de São Lourenço, onde fundou a Vila de São Lourenço dos Índios, considerada o núcleo que deu origem à atual cidade de Niterói – a primeira cidade brasileira fundada por um indígena.
O filho de Maracajaguaçu, acolhido em terras capixabas, tornou-se um dos principais nomes na consolidação do domínio português no território fluminense.
Epidemias, violência e exploração
A situação dos maracajás se deteriorou rapidamente nas décadas seguintes. Epidemias de doenças trazidas pelos europeus, especialmente a varíola, devastaram as aldeias indígenas. Como não possuíam imunidade natural, milhares de nativos morreram em poucos anos. Também houve denúncias de violência e escravização praticadas pelos próprios colonizadores contra os indígenas aliados.
Em 1567, o padre Manuel da Nóbrega criticou duramente os abusos cometidos contra os maracajás, afirmando que muitas “desumanidades” eram praticadas justamente contra os índios conhecidos como “geração do Gato”. Mesmo sob a supervisão dos jesuítas, os missionários já não conseguiam impedir a exploração crescente dos povos indígenas.
Referências:
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FARIA, Willis de. Catálogo dos Monumentos Históricos e Culturais da Capital. Lei Rubem Braga. Vitória, 1992
LACHINI, Claudio. Vasco: Memórias de um precursor da globalização. São Paulo. Editora Barcarolla, 2009
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Biblioteca Nacional
Arariboia, litografia publicada em 1866 na Coleção Brazil Histórico. Biblioteca Nacional.
Jeferson de Oliveira






