De um cenário de fazendas e colônias de pescadores nasceu a Rodovia Serafim Derenzi, nos anos 1940
Arquivo Público Municipal
Vista da Estrada do Contorno, próxima ao Sítio da Batalha. Ao fundo, Convento da Penha.
Arquivo Público Municipal
Operários quebrando rochas para passagem da Estrada do Contorno.
Uma das principais vias de Vitória, que conecta a região de Maruípe à Grande São Pedro e a Santo Antônio, a Rodovia Serafim Derenzi foi projetada em 1939 para contornar o Maciço Central. Inaugurada em 1943, a então Estrada do Contorno, sem pavimento, manteve, até o final da década de 1960, a função de escoar a produção de sítios e colônias de pescadores para o núcleo central do município.
Esta obra da engenharia, feita entre alagados e penhacos, atravessa 14 bairros: Andorinhas, Santa Marta, Joana D’Arc, Resistência, Nova Palestina, Redenção, Santo André, Ilha das Caieiras, São Pedro, Grande Vitória, Estrelinha, Inhanguetá, Santo Antônio e Mário Cyprestes. Documentos oficiais preservados no Arquivo Público Municipal e pesquisas historiográficas resgatam o histórico da construção e da ocupação dos bairros até os anos 1960.
Cenário original
Até o final do século XIX, a paisagem da região noroeste de Vitória era marcada pelas águas, que possibilitavam a navegação e a comunicação com o interior do Estado pelo Rio Santa Maria. O cenário era formado pelo manguezal, matas nas regiões mais elevadas, vista para morros como o Mestre Álvaro, fazendas e pequenos portos, como o da Ilha das Caieiras.
Na Ilha das Caieiras existia apenas uma pequena colônia de pescadores e um porto intermediário para as embarcações que desciam o Rio Santa Maria trazendo produtos para o Porto de Vitória e mercados da capital.
No livro Vitória Física, publicado em 1950, Adelpho Poli Monjardim, ex-prefeito de Vitória, descreve a região: “Era o seu acesso tão difícil como os ignotos sertões […] A região, fertilíssima, possui esplêndidos sítios que estão suprindo a cidade de verduras, legumes, leite, etc. […] O rápido desenvolvimento de toda a região, cifrado nas construções que se estão erguendo à margem da estrada, partindo de ambas as extremidades. […] Agora poderá ser percorrido por automóveis, desfrutando-se os mais variados panoramas, numa sequência que a impressão é de se estar fora de Vitória.”
Planejamento
Até 1939, a região noroeste da capital não possuía rotas estruturadas de circulação, sendo acessível apenas por trilhas utilizadas pelos moradores e produores a pé ou sobre animais. Foi nesse ano, na gestão do prefeito Américo Poli Monjardim, que foram iniciadas as obras da chamada ‘Estrada do Contorno da Ilha de Vitória”.
Projetada por Serafim Derenzi, a estrada começava no Cais do Hidroavião, em Santo Antônio, e seguia para o Norte, terminando no Quartel da Polícia Militar, em Maruípe. O traçado tinha vários objetivos, como incorporar à malha urbana as propriedades isoladas da região; viabilizar o escoamento de produção de verduras, legumes e leite dos sítios locais para o abastecimento do mercado consumidor da capital e explorar o panorama do contorno da ilha como novo ponto de visitação e turismo.
Uma edição da Revista Vida Capixaba (1941) elogia antecipa a função turística da via. “A Estrada do Contorno da ilha de Vitória é, talvez, a iniciativa de maior expressão para a vida da cidade nestes últimos tempos. Não só pelo maravilhoso espetáculo, com lindas perspectivas conhecidas até agora pelos próprios capixabas como ainda pelo atrativo de seus aspectos, oferecendo um dos melhores e mais agradáveis pontos turísticos.”
Serafim Derenzi
A obra foi executada pelo empreiteiro e imigrante italiano Serafim Derenzi. Nascido em Pesaro em 1863, Derenzi chegou ao Brasil na década de 1890. Órfão de mãe aos dois anos de idade e de pai aos cinco anos, foi criado por um tio padre, em Roma. Completou sua instrução primária apenas ao servir ao exército.
Chegou ao Brasil pelo Porto de Santos, onde trabalhou como ferroviário. Veio para o Espírito Santo, para trabalhar na ferrovia que ligava Cachoeiro de Itapemirim a Campos do Goitacases (RJ), da Companhia Leopoldina. Nesta companhia, ele percorreu diversas cidades do interior do ES e de Minas Gerais, na implantação e na manutenção de ferrovias.
Os primeiros trabalhos para o governo capixaba vieram a pedido do engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (logo depois, o primeiro prefeito de Vitória): o desmonte do morro da Santa Casa e o aterro do Parque Moscoso. Depois, vieram as obras no interior: ele construiu as rodovias Santa Leopoldina-Santa Teresa, Itarana, Itaguaçu, Palmeira, Santa Teresa, São João Petrópolis, inclusive as pontes em concreto armado de Santa Leopoldina e Funil.
Foi Serafim Derenzi quem fez o aterro do atual bairro de Jucutuquara, que era um pantanal. Ele canalizou o rio e construiu as ruas para Fradinhos, Maruípe e Ponte da Passagem. Ainda hoje, muitos moradores devem se lembrar da pavimentação em concreto da Avenida Vitória, feita em 1929, no tempo das carroças. Apesar do crescimento da cidade e do tráfego de caminhões, o pavimento resistiu, sem muita manutenção, até a década de 1970.
A Estrada do Contorno foi um dos últimos projetos de sua carreira, executada com picaretas, pá e carroças de tração animal. Derenzi faleceu aos 78 anos, em 2 de dezembro de 1941, antes da finalização total dos trabalhos, que só aconteceu em 1943. Luiz Serafim Derenzi, seu filho, conta que o pai construiu “cerca de 40 quilômetros de estrada de ferro e mais ou menos 300 quilômetros de estradas de rodagem.”
Em 1957, por proposta do vereador Athayde, a Câmara Municipal de Vitória alterou o nome da via para Rodovia Serafim Derenzi, formalizando uma homenagem póstuma ao construtor.
Poucas mudanças até o final da década de 1960
Durante a década de 1950, a região manteve o cenário bucólico, sem urbanização, contando com poucas residências fixas, apenas um veículo automotor e uma única linha telefônica particular instalada. O comércio restringia-se a um único botequim.
Mas, além do transporte de cargas e insumos agrícolas, a via começava a ser utilizada pelos moradores locais para passeios no entorno da ilha, contornando cafezais e propriedades rurais que delimitavam o perímetro do Maciço Central.
As terras às margens da rodovia pertenciam a poucas famílias tradicionais e a região entre a atual Praça do Eucalipto e o bairro Santa Marta era denominada Barreiros. A área que hoje corresponde ao Parque Municipal de Barreiros era uma propriedade voltada à criação de gado, cavalos, piscicultura e cultivo de orquídeas.
Até o final dos anos 1960, a Rodovia Serafim Derenzi continuava sem pavimentação. No período de chuvas, a via ficava intransitável para automóveis. Essas características rurais e paisagísticas permaneceram estáveis até o início da década de 1970, quando um novo processo de desenvolvimento econômico se instaurou em Vitória e no Espírito Santo, com a implantação de grandes projetos industriais, o Complexo de Tubarão da então Companhia Vale do Rio Doce (hoje, Vale), Aracruz Celulose (atual Suzano) e Companhia Siderúrgica de Tubarão (atual ArcelorMittal Tubarão).
Fonte: Arquivo Público Municipal de Vitória.
Rodovia Serafim Derenzi, nos anos 1940
Arquivo Público Municipal
Operários trabalhando, carrinhos de mão e carroças utilizadas nas obras da Estrada do Contorno.





