Estudantes de Vitória criam cartografia para tornar a aprendizagem mais inclusiva. – Prefeitura de Vitória

Estudantes de Vitória criam cartografia para tornar a aprendizagem mais inclusiva.


  • Educação de qualidade

Bárbara Bueno Sá

Pibic Jr 2026 - Projeto Geoprotagonismo

Pibic Jr 2026 – Projeto Geoprotagonismo.

E se um mapa pudesse ser tocado, explorado e construído pelos próprios estudantes? Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Eliane Rodrigues dos Santos, na Ilha das Caieiras, em Vitória, essa ideia está ganhando forma por meio do projeto “Geoprotagonismo – Produção de cartografia tátil e social para uma educação inclusiva”, que transforma alunos em produtores de conhecimento e cria materiais acessíveis para colegas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e baixa visão.

O projeto é uma experiência que une pesquisa, Geografia e inclusão, mas começa com uma proposta ainda mais ampla: estimular a autonomia dos estudantes e mostrar que a Geografia pode ser muito maior do que aquela aprendida de forma tradicional em sala de aula.

O nome não foi escolhido por acaso. Geoprotagonismo nasce da união entre “Geografia” e “protagonismo estudantil”, conectando a ciência geográfica escolar ao desenvolvimento da autonomia dos alunos.

“A proposta nasceu da necessidade da EMEF Eliane Rodrigues dos Santos de ter um projeto de promoção de protagonismo estudantil, junto com a minha necessidade de mostrar uma Geografia não tradicional para os estudantes. Eu também percebi que a escola carecia de materiais didáticos adaptados para o ensino de Geografia e, como já conhecia o potencial dos mapas táteis, resolvi trazer essa ideia para dentro das ações do projeto”, explica o professor e orientador Mateus Barbosa da Silva.

O Geoprotagonismo é um dos projetos selecionados neste ano pelo PIBIC Jr. em Vitória, iniciativa que aproxima estudantes da rede municipal da pesquisa científica e estimula a curiosidade, a investigação e a produção de conhecimento desde a escola. O programa é promovido pela Companhia de Desenvolvimento, Turismo e Inovação de Vitória (CDTIV), através do FACITEC, fortalecendo a conexão entre educação, ciência, inovação e desenvolvimento.

Na quinta-feira (20), uma equipe da CDTIV, acompanhada pela Secretaria Municipal de Educação (SEME), realizou uma visita técnica à escola para conhecer de perto a proposta, conversar com os estudantes e acompanhar o desenvolvimento da pesquisa.

Para a diretora de Inovação da CDTIV, Bárbara Ohanna, a visita permite enxergar de perto como a inovação pode nascer de desafios reais da comunidade escolar.

“O Geoprotagonismo mostra que inovação também é encontrar novas formas de aprender, ensinar e incluir. Quando estudantes identificam um desafio, pesquisam, experimentam e constroem uma solução, eles estão desenvolvendo uma capacidade que vai muito além do conteúdo escolar. É esse espírito de curiosidade e criação que queremos valorizar e aproximar cada vez mais das iniciativas de inovação de Vitória.”

Uma Geografia que vai além do mapa

O projeto é amplo, assim como a própria Geografia. Dentro desse universo, os mapas táteis ganharam atenção especial.

Eles são uma forma de trabalhar uma tecnologia assistiva ainda pouco explorada como recurso didático universal, permitindo que conceitos cartográficos sejam apresentados por meio de diferentes texturas, materiais e elementos sensoriais.

E é justamente nessa etapa que os estudantes mais colocam a mão na massa. Eles testam materiais, experimentam texturas, criam protótipos e avaliam diferentes possibilidades para representar o território. O processo de tentativa e erro faz parte da pesquisa, e transforma a sala de aula em um pequeno laboratório de experimentação.

A experiência também muda a relação dos alunos com o próprio conteúdo.

A estudante Samilly Pereira, aluna do 7º ano resume essa transformação ao contar como passou a enxergar a Geografia de outra maneira:

“No ano passado, a gente estudou Geografia de uma forma mais tradicional. Mas, este ano, eu descobri um monte de coisas que eu nem sabia que existiam. Conheci a Geografia plural e, em todos os meus anos de estudo, nunca tinha ouvido falar sobre isso.

A partir do Geoprotagonismo, fomos descobrindo novas formas de ler e compreender. A gente aprendeu, por exemplo, a fazer uma leitura da bandeira, algo que nunca tínhamos pensado em fazer. Também conhecemos a ideia de ‘meu corpo, meu território’, que fez a gente olhar para nós mesmos e para o lugar onde vivemos de uma maneira diferente.

Com o Geoprotagonismo, fui descobrindo várias coisas que eu não sabia e percebendo que a Geografia pode ir muito além. É uma nova forma de pensar, aprender e enxergar a Geografia.”

Foto Divulgação

Pibic Jr 2026 - Projeto Geoprotagonismo
Pibic Jr 2026 – Projeto Geoprotagonismo

Quando o estudante vira pesquisador

Participam do projeto 16 estudantes: oito bolsistas do 6º ao 9º ano e outros oito voluntários. As atividades são realizadas no contraturno escolar, e a presença constante dos participantes demonstra o interesse em aprender algo que vai além do currículo.

Entre eles está João Victor, estudante com TEA e bolsista do projeto. Para Mateus, os mapas táteis têm um papel especial nesse processo porque permitem que João também ocupe o centro da experiência.

“Os mapas táteis também ajudam a incluir nosso bolsista João Victor. Ele vira o protagonista nesse momento”, destaca o professor.

A inclusão, portanto, não aparece apenas como um objetivo final do projeto. Ela também acontece durante o próprio processo de criação. Os estudantes constroem, testam e pensam os materiais considerando diferentes formas de aprender e perceber o mundo.

Além dos colegas com TEA, os materiais desenvolvidos também poderão beneficiar estudantes com baixa visão e deficiência auditiva, ampliando as possibilidades de acesso aos conteúdos de Geografia.

O território também vira sala de aula

O projeto já começou a sair dos muros da escola. Os estudantes realizaram uma saída pedagógica pela Orla da Ilha das Caieiras, onde observaram e registraram a biodiversidade do território e a espacialidade do próprio bairro.

A atividade permitiu relacionar os conteúdos de Geografia com aquilo que os estudantes encontram no cotidiano: a paisagem, o território, as relações entre espaço e sociedade e as características ambientais da região.

Também já foi realizada uma oficina de cartografia básica. Em um dos encontros, os estudantes trabalharam os diferentes tipos de mapas e seus elementos obrigatórios, construindo conhecimentos que serão utilizados nas próximas etapas da pesquisa.

O caminho, portanto, não começa diretamente pela produção dos mapas táteis. Primeiro, os alunos aprendem a observar e interpretar o território; depois, desenvolvem os conhecimentos cartográficos necessários; e, a partir daí, começam a experimentar maneiras de representar esse espaço de forma acessível.

Foto Divulgação

Pibic Jr 2026 - Projeto Geoprotagonismo
Pibic Jr 2026 – Projeto Geoprotagonismo

Do diagnóstico ao Kit de Geotecnologia Inclusiva

A pesquisa partiu também de um desafio identificado na escola. Diagnósticos realizados com as turmas do 6º ao 9º ano apontaram defasagens na aprendizagem de conceitos relacionados à cartografia, enquanto a escola identificou a necessidade de ampliar os materiais didáticos adaptados para o ensino de Geografia. A resposta encontrada foi transformar essa necessidade em investigação.

Entre as próximas etapas está a produção do Kit de Geotecnologia Inclusiva, que deverá reunir materiais com diferentes texturas e outras possibilidades para trabalhar a cartografia de maneira acessível.

Outra frente prevista é a monitoria entre pares, baseada na ideia de “estudante ensina estudante”. Os próprios participantes poderão compartilhar seus conhecimentos com os colegas, fazendo com que aquilo que foi aprendido durante a pesquisa circule pela escola.

Assim, o projeto percorre um caminho que passa por observar, pesquisar, experimentar, produzir, testar e ensinar. É ciência com propósito. É pesquisa aplicada à realidade da escola. E é inovação construída a muitas mãos. 

Uma série para conhecer quem está fazendo

O Geoprotagonismo é o primeiro projeto apresentado em uma série de dez matérias sobre os projetos selecionados pelo PIBIC Jr. em Vitória.

Ao longo da série, diferentes histórias vão mostrar como estudantes da rede municipal estão pesquisando, experimentando e criando soluções para desafios reais.

São projetos que revelam que a inovação não precisa começar em grandes laboratórios. Ela pode nascer dentro da escola, a partir da curiosidade de um estudante, da experiência de um professor e da vontade de transformar aquilo que está ao redor.

Cada uma dessas histórias mostra um pouco do que acontece quando a pesquisa deixa de ser apenas conteúdo e passa a fazer parte da experiência dos estudantes, aproximando conhecimento, realidade e novas possibilidades para o futuro.

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