fé, política e três séculos de transformações em Vitória – Prefeitura de Vitória

Igreja do Carmo e Rua Cel. Monjardim: fé, política e três séculos de transformações em Vitória


Arquivo Público Municipal

Colégio do Carmo e Praça Irmã Josepha Hozanah. Foto de 1900

Colégio do Carmo e Praça Irmã Josepha Hozanah. Foto do ano de 1900.

Arquivo Público Municipal

Igreja e Convento do Carmo com a Capela da Ordem Terceira à esquerda, demolida na década de 1910

Igreja e Convento do Carmo com a Capela da Ordem Terceira à esquerda, demolida na década de 1910.

A Rua Coronel Monjardim não é a mais larga, nem a mais movimentada e nem mesmo a mais bonita do Centro de Vitória. Mas, esse curto trecho que liga o Convento São Francisco à Fonte Grande reúne importantes capítulos da formação da cidade. A antiga Rua da Capelinha foi construída sobre uma área alagadiça, que era atravessada  por pontes; conta a história da Igreja do Carmo e da visita de Dom Pedro II; reunia autoridades na Casa das Portas Vermelhas e foi o endereço da família Monjardim e do primeiro café da cidade – um marco da modernização. 

Ao longo de quase três séculos, por esta rua passaram religiosos, militares, comerciantes, autoridades imperiais e personagens importantes da política capixaba. A rua retrata o processo de aterramento e de expansão urbana da capital, o surgimento de espaços de lazer frequentados pela elite, a instalação de instituições de ensino e foi um dos trechos mais desafiadores do trajeto dos bondes (tração animal), que exigia ajuda dos passageiros para empurrá-los ladeira acima! 

Caminhar pela Rua Coronel Monjardim é percorrer séculos de fé, poder, educação, cultura e paisagens urbanas e descobrir que, por trás do nome de uma rua pouco celebrada, existem importantes marcos da formação de Vitória.

O Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo

Foi o donatário da Capitania do Espírito Santo Francisco Gil de Araújo quem convidou os padres carmelitas para Vitória e lhes doou a área. Por volta de 1682, teve início a construção do Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo, acompanhado pela igreja conventual e pela Capela da Ordem Terceira do Carmo, um conjunto de arquitetura colonial com influências barrocas. 

Na época, a região era marcada por nascentes e cursos d’água que desciam dos morros de São Francisco e da Matriz (atual Catedral). Segundo registros históricos, o caminho para a Igreja do Carmo passava por pinguelas. Mais abaixo, vizinho ao convento, ficava um campo conhecido como Pelames, constantemente encharcado. Ou seja, as ruas que hoje fazem parte daquela região, no Centro, eram, na época, extensões de brejos e córregos. 

Foi nesse cenário que surgiu a antiga Rua da Capelinha, estreita estrada de terra que seguia do pé da ladeira do Convento São Francisco em direção à Fonte Grande.

O Convento virou quartel 

A Ordem do Carmo tornou-se uma das mais influentes da província e também uma das mais prósperas. Parte desta prosperidade se deve à herança deixada, em 1696, pelo capitão Manuel Torres de Sá: uma fazenda em Piranema, atual município de Cariacica, com terras produtivas; uma capela dedicada a Nossa Senhora do Desterro e dezenas de escravizados que sustentavam a atividade econômica da propriedade.

No entanto, em meados do século XIX, o governo imperial restringiu a entrada de novos religiosos nas ordens existentes e a instituição entrou em declínio. Com a morte, em 1871, de frei Antônio de Nossa Senhora das Neves, último prior do convento, a crise se agravou e o convento passou a ser utilizado pelo governo provincial como Quartel da Companhia de Infantaria.

Arquivo Público Municipal

Igreja do Carmo e Rua Cel. Monjardim. Ao fundo, Convertidora (bondes) e Fonte Grande. 1940
Igreja do Carmo e Rua Cel. Monjardim. Ao fundo, Convertidora (bondes) e Fonte Grande. Década de 1940.

Octávio Paes

Rua Cel. Monjardim, Praça Irmã Josefa Hosana e Igreja Nossa Senhora do Carmo. 1936
Rua Cel. Monjardim, Praça Irmã Josefa Hosana e Igreja Nossa Senhora do Carmo. Ano de 1936.

A Casa das Portas Vermelhas

Voltando um pouco na história, no período de prosperidade do complexo do Carmo, a antiga Rua da Capelinha também se tornava endereço de poder político. Por volta de 1760 já existia no local um dos imóveis mais conhecidos da Vitória colonial: a chamada Casa das Portas Vermelhas, também conhecida como Palácio dos Capitães-Mores. A residência tinha uma frente voltada para a região dos Pelames e outra para a Rua da Capelinha. Ali viveram diversos capitães-mores, autoridades máximas da Capitania do Espírito Santo antes da Independência do Brasil. 

A Família Monjardim

Tempos depois, o imóvel passou a ser residência da família Monjardim, uma das mais influentes da história política capixaba. A atual denominação, oficializada pela Câmara Municipal em 27 de fevereiro de 1881, é uma homenagem ao coronel José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim (1797-1884), que integrou a Junta de Governo Provisório após a Independência do Brasil, representou a província na coroação de Dom Pedro I, comandou a Guarda Nacional e exerceu diversas vezes a vice-presidência da Província do Espírito Santo.

Um de seus filhos, Alfeu Adolfo Monjardim de Andrade e Almeida, recebeu o título de Barão de Monjardim, tornou-se deputado, vice-presidente da província e foi o primeiro governador eleito do Espírito Santo após a Proclamação da República.

O café elegante da cidade

A rua não foi apenas palco de decisões políticas e manifestações religiosas, mas também de encontros, conversas e da vida cotidiana dos moradores. Em 16 de dezembro de 1877, foi inaugurado o famoso Café do Carmo, considerado por cronistas da época o primeiro café de Vitória. Instalado em um pequeno parque nas proximidades da Rua da Capelinha, o estabelecimento se tornou rapidamente um dos pontos de encontro mais elegantes da cidade.

Famílias tradicionais, autoridades e visitantes reuniam-se ali para conversar, passear e acompanhar a vida social da capital, então ainda pequena e fortemente marcada pelas relações pessoais. O Café do Carmo simbolizava uma Vitória que começava a se modernizar e incorporar hábitos urbanos inspirados nos grandes centros do Império.

A admiração de Dom Pedro II

Durante sua passagem pelo Espírito Santo, Dom Pedro II registrou em seu diário de viagem a admiração pela Capela da Ordem Terceira do Carmo, classificando-a como a mais bonita entre as que visitara na província. A observação ajuda a dimensionar a importância artística e arquitetônica do conjunto religioso, que marcou a paisagem da cidade. Porém, a antiga Capela da Ordem Terceira foi demolida no início do século XX, durante as reformas urbanas e arquitetônicas pela modernização e expansão de Vitória.

Novas funções para o convento

Após a criação da Diocese do Espírito Santo, o antigo convento passou a desempenhar novas funções. Em 1897, o primeiro bispo diocesano, Dom João Batista Corrêa Nery, instalou-se no local e dedicou a antiga Igreja do Carmo a Nossa Senhora Auxiliadora. Pouco depois, surgiu o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, popularmente conhecido como Colégio do Carmo.

Administrado pelas Irmãs da Caridade Filhas de São Vicente de Paulo, o colégio tornou-se referência educacional para gerações de estudantes vindas de Vitória e do interior do Estado. As memórias desse período permanecem vivas entre ex-alunas e moradores da região. Muitas recordam com carinho o cotidiano escolar, as celebrações religiosas e a convivência com as irmãs vicentinas que marcaram a formação de milhares de jovens ao longo do século XX.

Posteriormente, o espaço também abrigou o Orfanato Coração de Jesus, o Externato São José e outras iniciativas educacionais e assistenciais.

Transformações arquitetônicas

Entre 1910 e 1913, o conjunto passou por uma das maiores intervenções de sua história. Segundo projeto atribuído a André Carloni, foram acrescentados novos pavimentos à área residencial e promovida uma profunda remodelação estética. A antiga linguagem barroca foi substituída por elementos inspirados na arquitetura medieval europeia. Arcos ogivais, pináculos, torres ornamentadas e detalhes de inspiração gótica passaram a compor a fachada que ainda hoje distingue a Igreja do Carmo de outras construções religiosas do Centro Histórico de Vitória.

Ao mesmo tempo, a escadaria frontal recebeu uma composição de inspiração barroca italiana, criando um conjunto arquitetônico singular que atravessou o século XX preservando sua identidade. Atualmente, a fachada principal integra o patrimônio protegido pelo Estado.

Patrimônios vivos da cidade

Depois de ter sido convento, quartel, residência episcopal, internato, escola, orfanato e centro religioso, a Igreja do Carmo continua aberta para celebrações e visitas, enquanto parte do conjunto abriga atividades educacionais e comunitárias. Mais do que um patrimônio arquitetônico, o local preserva histórias pessoais de casamentos, batizados, missas, encontros familiares e lembranças de infância que unem diferentes gerações.

Da mesma forma, a Rua Coronel Monjardim. Das antigas pinguelas sobre terrenos alagados às reformas urbanas do século XX; dos capitães-mores aos governadores; dos sinos do convento ao movimento dos estudantes; dos encontros elegantes no Café do Carmo às memórias afetivas dos moradores do Centro; da passagem dos bondes de tração animal aos modernos carros elétricos, a rua reúne, em poucos metros, uma síntese da história da capital capixaba.

Fonte: Arquivo Público Municiplal de Vitória.

Arquivo Público Municipal

Imóvel na Rua Cel. Monjardim. Foto de 1926

Imóvel na Rua Cel. Monjardim. Foto do ano de 1926.

Arquivo Público Municipal

A partir da Fonte Grande, no centro, o Complexo do Carmo, e, ao fundo, Ilha do Príncipe. 1940
A partir da Fonte Grande, no centro, o Complexo do Carmo. Ao fundo, Ilha do Príncipe. Década de 1940.

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